Estado de Mato Grosso pagará R$530 mil por morte de idosa que esperou 15 dias por UTI

O acesso à saúde pública é um direito fundamental garantido pela Constituição Federal. No entanto, na prática, a omissão do Poder Público na prestação de serviços médicos essenciais ainda é uma realidade dolorosa para muitas famílias brasileiras.
Recentemente, a Justiça do Mato Grosso condenou o Estado a indenizar os familiares de uma idosa em R$ 530 mil por danos morais, após o descumprimento sucessivo de ordens judiciais para a sua transferência urgente a um leito de UTI. O caso traz à tona um conceito jurídico fundamental na responsabilidade civil do Estado: a Teoria da Perda de Uma Chance.
Neste artigo, explicamos como ocorreu esse julgamento e o que esse precedente ensina sobre a defesa dos direitos do cidadão.
Entenda o caso:
A paciente foi internada em um hospital municipal de Campo Verde/MT apresentando quadro clínico grave e com indicação expressa para tratamento intensivo (UTI). Diante da falta de vagas e da inércia inicial do sistema de regulação, a família precisou recorrer à Justiça para garantir o atendimento.
Mesmo com uma decisão liminar determinando a transferência imediata em um prazo máximo de 12 horas, a ordem só foi cumprida cerca de nove dias depois — totalizando 15 dias de espera desde a internação inicial. A remoção para a capital só se concretizou após medidas drásticas, como o bloqueio judicial de verbas públicas.
Infelizmente, a idosa faleceu um dia após dar entrada na UTI. Diante do lamentável desfecho, os familiares ajuizaram ação de indenização contra o ente estatal.
Negligência e o Dever Específico de Agir
Na decisão fundamentada pela 2ª Vara Cível de Campo Verde/MT, a magistrada destacou que a ordem judicial prévia criou para o Estado um dever específico de agir. O ente público não conseguiu comprovar que adotou medidas eficazes ou buscas reais por vagas — seja na rede pública, seja no setor privado custeado pelo Estado — para cumprir o prazo estipulado.
A permanência forçada da paciente em uma unidade sem a infraestrutura necessária para a sua gravidade configurou flagrante negligência e morosidade administrativa.
O que é a Teoria da Perda de Uma Chance?
Um dos pontos mais relevantes da sentença foi a aplicação da Teoria da Perda de Uma Chance.
Em casos de erro ou omissão médica/estatal, nem sempre é possível provar com 100% de certeza absoluta que o paciente sobreviveria caso tivesse recebido o atendimento adequado a tempo. No entanto, o Direito entende que a omissão injustificada do Estado privou o indivíduo de uma oportunidade real e concreta de lutar pela vida ou de ter um tratamento digno.
A lógica da teoria é simples: o Estado não responde necessariamente pela morte em si, mas sim por ter retirado do cidadão a chance de tentar a cura ou a sobrevida.
Ao comprovar a falha na prestação do serviço e o nexo entre a omissão estatal e a perda dessa oportunidade, configurou-se o dever de indenizar viúvo, filhos e netos, em montantes que consideraram a gravidade da falha e o caráter pedagógico da punição.
O que fazer em casos de omissão do SUS?
O descumprimento de prazos e a falta de leitos não devem ser encarados como mera fatalidade. Quando a administração pública falha em prestar o atendimento básico e urgente, a legislação prevê mecanismos jurídicos rápidos — como ações com pedido de liminar e bloqueio de verbas públicas — para compelir o Estado a cumprir seu dever.
Caso a omissão traga prejuízos irreversíveis ou perda de chances reais de tratamento, a família tem o direito de buscar a reparação moral e material devida.
Seu direito à saúde foi violado?
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